"Espera, que a vontade passa!"E se esperássemos todas as nossas vontades passarem?!
Talvez não seríamos nem metade do que somos, na verdade acho que não seríamos simplesmente nada... afinal, não são as vontades que nos movem, que nos fazem ir além?!!!
Se eu esperasse minha vontade passar...
Jamais teria ido ao Peru... nunca teria ido sozinha e hoje não poderia dizer com toda a convicção que o Peru é muito mais que Machu Picchu!
Não teria conhecido o deserto de Paracas, em que sua aridez amarela rochosa é beijada em ondas azuis espetaculares do congelante Pacífico! Não teria visto os paredões afundarem no oceano, formando imagens de catedrais e o que mais a imaginação desejar...
Não teria passado por entre a Cordilheira dos Andes, a cadeia montanhosa presente nos livros didáticos desde a nossa infância e que, nós brasileiros, não fazemos idéia do que é este dobramento moderno (nome este que tivemos de aprender nas aulas sobre relevos!), com seus picos nevados e platôs cobertos por gramíneas rasteiras, onde vivem rebanhos de lhamas, alpacas e vicunhas selvagens... as fezes desses animais servem de aquecedor para a população extremamente pobre desta área, acostumada ao frio intenso e ao ar rarefeito, que faz qualquer um chegar ofegante ao terminar de subir sete degraus!
Também não saberia o que é pobreza, mesmo morando no Brasil, fui descobrir o que de fato é pobreza em cidades como Juliaca e Puno, às margens do Lago Titicaca... mãos esticadas a pedirem "una propina señorita", pessoas a satisfazerem suas necessidades em valas no meio de tudo, simplesmente acocorando-se e pronto, tudo resolvido. Cidadezinhas que se assemelham à um grande terreno de obras, em que tudo parece ser provisório ou resto de algo, onde sucatas móveis, queimadoras de óleo, levam as pessoas de um lado para outro, num caos total em que a única regra é buzinar... cidadezinhas que ruiriam com um leve sopro ( e nem precisaria ser do lobo mau, o do porquinho já estaria valendo!)... quase um mês depois, com muito pesar, vi no noticiário meu itinerário arrasado por um terremoto... destruição na mesma proporção da pobreza...
Se eu tivesse desistido da vontade, não teria tocado nos muros incas, tentado passar minhas unhas por entre as frestas que não são frestas, de contornos tão absurdos para pedras tão pesadas, não teria entendido o que é o muro dos incas e o muro dos "incapazes" e o que de fato significa a palavra dominação! Dominação ideológica!
Uhh, demorei a escrever sobre o Peru, pois foi algo tão intenso, que até hoje acredito não ter conseguido digerir tudo, foi muita coisa impressa em minha alma...
E que bom que foi... ainda bem que eu não sou do tipo de pessoa que espera as vontades passarem...





